EdLua.Artes

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Blog mantido por Lua Rodrigues e por mim. Trata de Artes, Eventos Culturais, Filosofia, Política entre outros temas. (clique na imagem para conhecer o blog)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Gênesis - 20º Capítulo

Minha tentativa de afastamento e retração falhou por que logo que acordou, minha acompanhante começou a fazer perguntas sobre mim. Eu estava inseguro, mas ela soube como se mostrar confiável. Confiável ela sem dúvida é, sempre me olhou nos olhos enquanto conversávamos. Mesmo assim eu resistia, e para que? Proteger minha razão? Ora, pra que tive tanto medo de perder o controle? Minhas respostas, que começaram o mais breves possível, foram se alongando no decorrer da conversa, mesmo assim eu puxava tudo para o presente. Falei das aulas desafiadoras do professor Sérgio, da minha amiga Letícia, das outras matérias, de como eu gostava de psicologia... Marília percebeu minha grotesca insistência em fugir do meu passado. Eu não falava com ninguém a respeito da minha ex-namorada, exceto com os poucos amigos daquela fase que, de vez em quando, ainda falam comigo. De fato, nem mesmo Letícia sabia da existência de Felícia. Tudo que a pessoa que mais me conhecia sabia é que tinha acontecido algo muito grave com minha mente. Mas Marília soube exatamente o que falar para me deixar sem saída nenhuma...

- Mas, Carlos, quando nos conhecemos, você me disse que fazia Letras e você foi o primeiro a fazer uma análise profunda e boa do meu livro, devia ser ótimo em literatura.- disse ela me olhando nos olhos após ter escolhido muito bem as palavras, movendo levemente e fixando por um segundo, os olhos pro canto superior direito das órbitas, indicando atividade na região lírica do cérebro.- Por que decidiu fazer psicologia?

E, então, eu podia até dizer que as pessoas mudam e fazer uma brincadeirinha boba, dizendo que, apesar de tudo testemunhar contra mim, eu ainda era humano, portanto, sujeito a mudar... Eu pensei mesmo em fazer isso, mas, sei lá, acho que considerei que seria estúpido com ela, que havia compartilhado comigo toda aquela dor e todo o passado dela. Pode ser que a sinceridade dela já havia me transformado em outra pessoa, mais próxima do que eu era antes de tudo isso começar. Mesmo assim, eu ia jogar toda a culpa nos meus chamados amigos, aqueles que me abandonaram depois de uma denúncia falsa de que eu era falso, mas Marília colocou minha mão entre as dela e apertou me olhando nos olhos, como se pedisse com todo o coração pra mim dizer a verdade e talvez fosse isso mesmo que eu precisava achar, uma mulher que me deixasse sem saída nem racional e nem emocional, pra que, eu tivesse somente a opção de dizer a verdade. E eu queria muito conversar com alguém que me entendesse. Quando me dei conta eu estava trocando carinhos com ela... E contando toda a verdade da minha vida, enquanto eu chorava aquele choro de limpeza emocional e ela quase sorria de me ver chorando, feliz por ter descoberto que eu ainda tinha salvação.

Contei tudo, toda a minha vida, olhando sempre nos olhos dela. Era mesmo a minha sinceridade absoluta que tinha me separado da Felícia, agora, depois de tanto tempo esquecida num canto da minha mente, estava criando vínculos com Marília Buonicelli, a escritora do meu livro de cabeceira, é a vida trazendo surpresas! Contei como conheci meus amigos no intervalo do colegial e como foi duro ver que eles nem sequer procuraram saber meu lado da história quando uma ex-namorada de um deles disse a eles que eu havia dito a ela que eles não eram confiáveis; quando eu já havia avisado eles que, dias antes, ela havia me dito que eu é que não podia confiar neles. Até hoje, nem eu consigo acompanhar direito essa história, mas ali já comecei a ver que a sinceridade nem sempre é garantia de que a relação vai funcionar.

Contei que fiquei três semanas me preparando pra sair de casa, depois daquela confusão e, mesmo assim, levei uns bons dois meses procurando algum sentido nessa história toda, sem sucesso. Contei que minha vida só tinha voltado ao normal quando conheci a minha ex-namorada que me cobrava a sinceridade, mas, na hora h, não aguentou e nem entendeu o que eu estava tentando dizer, como o namoro inteiro também tinha sido instável. E contei como havia sido sofrida a separação, por que eu era totalmente dependente dela. E foi aí que realmente percebi como Marília é especial pra mim e rara para o mundo.

Eu mostrei a carta para ela, depois de contar toda a história da relação e da carta, ou quase toda. Ainda não havia contado exatamente o que causou a tal separação. Ela abriu a carta com cuidado e leu só para si, depois devolveu o papel ao envelope e lacrou de novo com um pequeno adesivo que tirou da capa do caderninho dela, me entregando de volta.

Ela suspirou, me olhou no fundo dos olhos e disse que eu tinha que ler a carta, mas quis saber o que, de tão grave e sincero, eu tinha dito a ela. Eu abaixei a cabeça com medo de falar e foi a vez dela de levantar carinhosamente a minha cabeça e com um sorriso me fazer o carinho mais sincero que eu já senti, sem nada de malícia ou pena, dizendo que para ela eu podia contar tudo. Eu me senti seguro como nunca havia me sentido nos braços dela, foi de longe a melhor sensação que eu já tive, por isso decidi contar ela. Acho que ela teve de se segurar pra não rir, mas a verdade é que eu disse a minha ex-namorada que havia outra mulher me encantando, mas que eu não queria trair ela por que, realmente, sabia que aquele encanto não poderia substituir a história que nós já havíamos construído. Eu esperava que Marília fosse fazer o que todas as outras pessoas pra quem contei essa história fizeram. Me perguntar qual a finalidade disso, o que eu esperava que Felícia entendesse?

Mas Marília é excepcional. Ela me sondou naquele olhar espantado e carinhoso que só ela tem e, por alguns instantes, ficou calada, me admirando... Eu pensava que ela estava me achando completamente doido e me surpreendeu quando ela pediu uma folha emprestada por que precisava escrever uma carta pra alguém especial. Eu emprestei a folha certo de que seria para o Paulo... Agora percebo que minha arrogância me servia de auto-afirmação, funcionava como um simulador de segurança, mas era mais um pedido de socorro, já que minha auto-estima estava lá embaixo desde que meus amigos cortaram os laços daquela maneira.

E, quando Felícia apareceu, eu acabei jogando todas as esperanças de um relacionamento bom em cima dela. Nós tínhamos sim quase o mesmo projeto de vida, achei que eu podia me entregar, mas essa entrega, na relação afetivo-amorosa eu ainda não sabia fazer. Eu não conservei nada pra mim. Todos os meus projetos, meus sonhos, toda a minha vida estava baseada na presença dela... Quando ela saiu da minha vida, meu chão imaginário caiu... E foi uma queda tão brusca que não consegui me reerguer de verdade, tive que inventar uma outra pessoa pra continuar viva por mim, mas... Marília sempre fez parte do processo e, nessa noite de maio, ela me reergueu definitivamente.

- Ela não entendeu nada, não é? Se sentiu traída?- disse Marilia se referindo à minha ex e me olhando nos olhos com um olhar de mulher decidida que me envolveu, enquanto dobrava a carta já escrita e a colocava na bolsa sem cuidado nenhum, e eu concordava com a cabeça.- Você usou as palavras com o sentido exato do que queria dizer. Você também só queria proteger o que valia a pena e eu entendo...- e aprofundando ainda mais o olhar.- Eu não viraria as costas pra você assim. Não viraria, não... Eu não virarei nunca.- eu abaixei a cabeça pensando que ela estava dizendo aquilo pra me consolar, mas, sem temer nada nem ninguém, ela levantou meu queixo e me fez carinho.- Carlos, olha pra mim! Eu sei que vou ter que lutar muito pra te convencer que seja lá o que aconteça nessa madrugada é com você que eu quero acordar amanhã!- ela fez uma pausa e observou minha reação. Eu olhava fixamente nos olhos dela, sem querer acreditar no que ela estava fazendo. Uma mulher do nível de Marília...- Carlos, sabe do que devemos cuidar em primeiro lugar?- continuou ela colocando a mão no meu peito.- De nós mesmos, sim, mas para isso não é necessário não sentir nada! E você conseguiu! Você cuidou de mim quando nem eu mesma acreditava em mim, me fez companhia a noite toda e ainda é sincero a ponto de fazer o que fez. E você, Carlos, me provou que ainda existem pessoas boas e inteligentes no mundo.- ela me abraçou e disse no meu ouvido.- Eu vou atrás da nossa resposta, da minha resposta, pra me libertar de algumas dúvidas que me prendem a essa história. Fica ao meu lado, fica ao meu lado, ta?

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Continua... 21/2/12 às 15:00... Último capítulo...

Por favor comentem o que acharam do capítulo de hoje.

Abraços Ed

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Gênesis - 19º Capítulo

Quem diria que ela ficaria assim tão serena diante da verdade? Mas, para isso, tive que apontar todos os sinais físicos e mecanismos mentais que ela estava mostrando e explicar que aquilo era um medo desnecessário, entre aspas, é claro, por que era só não criar expectativas em cima do que não é certo e fica tudo bem. Tive ainda que demonstrar, com metáforas, que expectativa só machuca por que espera algo e, se não acontecer o esperado, a situação se torna frustrante, pois, nunca estamos realmente preparados para o imprevisto; e, também, argumentar que, além de tudo, expectativa causa sofrimento antecipado, pois, é um tipo de ansiedade bem difícil de controlar por ser quase um mecanismo lógico-racional que funciona com base em sentenças condicionais aplicadas indevidamente ao campo emocional, e que, se não se podia controlar totalmente, era possível torná-la menos nociva.

Até que ela mesma percebeu que queria mesmo saber a verdade sobre o que tinha se passado na cabeça do Paulo, não importava qual fosse. Ela me pediu pra ir com ela, afinal, ela tinha tomado uma decisão importante e, admitindo estar assustada, disse que minha presença já ajudaria muito. Ela lavou o rosto no banheiro do hotel, para tirar um pouco o aspecto de choro, e, logo, pegamos o primeiro ônibus.

Eram 22:30 quando saímos para a avenida e cruzamos uma passarela para aguardar o tal ônibus e até que esse passou rápido pelo nosso ponto. Essa hora sempre há alguns lugares disponíveis, mas nós tivemos a sorte de sempre encontrar um banco inteiro só pra gente, assim pudemos nos sentar sempre um do lado do outro e conversar.

Durante o trajeto, Marília foi conversando espontaneamente comigo sobre o que ela esperava que fosse acontecer quando chegássemos aqui. Conversar é mesmo um ótimo jeito de se manter sob controle. Ter alguém que nos escute é mais que gostoso é uma necessidade. Eu acho incrível, mas ela foi concluindo sozinha que não devia esperar nada, ela estava fazendo o que ela achava o correto a se fazer, o que ela precisava fazer; e, se a necessidade dele fosse mesmo permanecer sem falar com ela, ela teria de aceitar.

Eu fui realizando o mesmo processo junto com ela, sem exteriorizar pra não atrapalhar as reflexões dela. Eu realmente não disse quase nada e não sai de uma postura que mostrava um interesse enorme e um distanciamento maior ainda, pois eu estava no fundo da minha consciência, me trabalhando, percebendo que minhas próprias expectativas podiam ser resumidas e facilmente resolvidas, a frustração toda podia ser aceita com certa benevolência se eu a encarasse como um aprendizado. Tudo isso foi se revelando nas palavras da escritora e depois de tantos anos acertando tudo pelo racional e dispensando as emoções, eram elas que vinham me resgatar e mostrar que eu já estava pronto para aceitar, como um adulto, que a separação tinha me libertado de certos padrões sociais e certos medos que eu tinha; como, por exemplo, o medo da solidão e o tabu de fazer sexo por prazer. E pensar que até hoje nem acreditava mais no dito “fazer amor”... E agora eu tenho vontade real de me ligar afetivamente com alguém...

Tudo por que, embora eu estivesse com uma perna dobrada em cima da outra e os braços cruzados, mas buscando sempre o olhar dela, ela estava aberta, gesticulando bastante, ela estava segura comigo e isso estava me fazendo bem; de vez em quando ela até me arrancava um sorriso, graças a algum gesto carinhoso...

Ela foi muito carinhosa durante os quarenta minutos que ficamos naquele ônibus e isso começou a me agradar. Ela fez grande parte do percurso com a cabeça encostada no meu ombro, mesmo que eu estivesse numa postura fechada e por mais que tentasse não quebrar minha solidão, às vezes, enquanto ela falava, eu fazia um carinho nos cabelos ou no rosto dela para retribuir o carinho que ela fazia no meu braço. Claro que eu sabia que ela só estava fazendo aquilo por que era o jeito dela de se sentir segura, mas ela acabou me deixando cada vez mais confortável, mais próximo, mais íntimo. Já não queria apenas as respostas ou cumprir promessas. Percebi que gostava mesmo de estar com alguém tão madura que me permitia me descobrir cada vez mais e seja lá como fosse o resto da noite eu queria continuar por perto, mas ai veio um bloqueio... Percebi que eu estava me apaixonando por ela e, naquela hora, me veio do inconsciente a certeza que eu ia passar pela mesma dor novamente, era mesmo um trauma bem forte em mim...

E eu realmente sinto que agora esse trauma já foi superado pra sempre. Não está mais escondido debaixo de um jeito arrogante de racionalizar as emoções. Esse meu jeito racional de ser eu não vou mais mudar, mas pretendo me refinar, permitindo que as emoções boas continuem fazendo parte dos meus dias mesmo que sob vigília permanente, principalmente a felicidade. Estou feliz. De uma maneira calma e sensata, mas, feliz. Me sinto livre. O medo já passou e acho que estou pronto pra aprender a amar sem cair na obsessão das paixões. São essas obsessões que nos machucam nos relacionamentos, o medo de perder o carinho e atenção do outro, nos faz cometer pequenas loucuras que podem extrapolar os limites de tudo. E são essas loucuras que eu não quero mais pra mim.

Mas aquele medo de me entregar ainda persistia, quando Marília começou a perguntar sobre mim, ela queria me conhecer melhor, conhecer a minha pessoa. Isso já era no terceiro ônibus. Ela precisava descansar um pouco e a viagem do segundo ônibus seria mais comprida um pouco, segundo a amiga dela. E de fato foi; então, depois de conversamos um pouco mais sobre a vida dela antes de Paulo, época em que, segundo ela mesma, e com isso eu tinha que concordar, se lançou verdadeiramente como escritora criando um estilo próprio de escrever. Fiquei sabendo que ela conheceu Paulo num encontro de artistas e, estando fascinada com o jeito peculiar das fotos que ele produzia, o chamou pra ser ilustrador do terceiro trabalho dela, e ai eles, como já era de se esperar, se apaixonaram. O namoro deles não foi estável, mas ela acreditava ter sido o período mais próspero de sua vida e atribuía isso a estar com ele. Contestei esse fato dizendo que, mesmo se fosse outra pessoa, se houvesse uma grande ligação afetiva, ela se desenvolveria do mesmo jeito ou até melhor, se a pessoa fosse mais estável. Ela concordou com um sorriso tranquilo, mas ponderou que, na época, ele foi o único com quem ela sentiu que tinha afinidades. Entretanto, ela ia completar a frase dizendo que na verdade tinha uma outra pessoa que havia sim mexido com ela, mas não disse quem... E pelo olhar dela, eu achei que talvez pudesse ter sido eu... Depois daquele olhar, ela se encostou no meu ombro, me abraçou e dormiu até perto do ponto que tínhamos que descer.

Enquanto ela dormia, encostada em mim, tão sensível que parecia ter voltado à fragilidade, eu tentava fazer um distanciamento psicológico senão acabaria me envolvendo com ela e ela dizia ainda amar o Paulo, embora estivesse dormindo quase no meu peito como se fosse um casal bem estruturado depois de uma noite de prazeres. Me custa acreditar que ela pode gostar de mim, todos os sinais mostram que sim, acho que só saberei daqui há pouco quando ela voltar. Por enquanto ela ainda parece estar conversando com Paulo e a mulher que apareceu na porta que, agora, olhando atentamente, parece estar usando um pingente com forma de coração folhado a ouro.

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Continua... 18/2/12 às 15:00

Por favor comentem o que acharam do capítulo de hoje.

Abraços Ed

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Gênesis - 18º Capítulo

- Eu ia dar dinheiro pro mendigo comprar comida, tamanha foi a impressão que tive de que tudo ainda tinha uma mínima chance de dar certo... Fiz um trato com ele... - e ela parou a frase por uns instantes, de novo.- Eu entendi quando ele apontou a faca pra mim, a vida dele deve ser muito difícil, dura e assustadora. O trato era que ele podia levar tudo que eu tinha comigo, menos o pingente, o dinheiro dos ônibus que eu tinha que pegar e a chave do meu carro que não serviria de nada pra ele por que o carro está concertando e vai demorar muito pra ficar pronto. Cheguei até a mostrar as coisas pra ele, e ele aceitou, já que poderia vender quase tudo, a bolsa, os livros, os dois pen-drives virgens, o celular novo... Eu estava pegando as minhas coisas quando gritaram que eu estava sendo assaltada e surgiu aquele intrometido... Pessoas tendem mesmo a julgar as aparências e não buscar os sentidos, não é?- concordei com um gesto e a deixei continuar, totalmente admirado com a bondade com a qual ela tratou um mendigo estranho; aquilo fugia completamente da minha concepção de vaidade, aquilo sim foi coragem, como eu havia deduzido. Dialogar com um assaltante armado... Ela é incrível!

Marília e Paulo pararam de falar e estão apenas se olhando. Ele está um pouco menos combativo, sua postura mudou. É perceptível que ele, agora, está pronto para recebê-la em seus braços. Ela chega até a preparar o abraço, mas contém o movimento antes de um toque e fala alguma coisa, ele responde com um olhar para dentro da casa e um gesto afirmativo feito com a cabeça. Os dois se olham e ele chama alguém com outro gesto de cabeça. Aparece na porta da casa uma mulher um pouco mais alta, com a pele mais morena e mais gordinha que Marília, vestida com uma camisola muito sensual. As duas trocam olhares e falam alguma coisa... Marília não parece brava ou triste... Apenas, serena e, talvez, um pouco mais fechada, seus braços se cruzaram na frente do corpo há alguns segundos... Bem diferente da postura que adotou comigo há pouco mais de quarenta minutos, aquela era uma postura meiga. Mesmo estando de costas dá pra perceber que ela está sendo simpática, mas com uma retração muito grande. Ela acaba de dar um passo pra trás e contrair um pouco os ombros... E foi essa postura de retração que ela desmanchou em mim, há pouco. Eu convivi com distimia, uma depressão com sintomas mais leves, porém, mais duradouros, pode persistir por anos e levar ao suicídio por conta da sensação de tristeza constante. Eu sábia disso há muito tempo, mas não queria me tratar por que achava que seria inútil voltar a ser como antes... Minha cura só começou quando...

- O povo do ponto e do ônibus me provou isso. Dar parabéns à violência só por que parecia um salvamento, é ridículo! Do mendigo eu não tenho raiva nenhuma, sei que, na situação dele, até eu fugiria da briga com o que pudesse levar nas mãos...- Marília olhou para o chão e continuou.- Eu não queria ter que acreditar... Mas o Paulo parece fazer parte desse grupo... - ela deixou as últimas lágrimas caírem e me olhando nos olhos, continuou com uma voz mais aveludada.- Já pra você, sou eu quem deve desculpas... Quando você disse que você tinha se inspirado no Pietro, eu pensei que você fosse do tipo de pessoa que não enxerga além do que está escrito nos livros. Pietro não é um exemplo de felicidade, mas sempre soube... Você não é o Pietro, você...- ela fez um carinho no meu rosto, como que para ver se eu era real, mas eu gostei tanto disso, faziam mais de sete anos que não sentia um carinho verdadeiro no rosto.- Ainda está comigo. Pietro jamais seria capaz de tanta humanidade, ele teria chamado alguma entidade do governo que me detivesse. Você, Carlos, pegou só a parte boa do Pietro, o gosto pelo sentido, mas imagino que isso já era parte de você... Agora eu entendo você... Você é como eu, gosta dos sentidos... - ela se levantou, pegou a bolsa, tirou dela um papel e uma caneta, escreveu exibindo um sorriso sincero e me entregou o papel, me dando um beijinho no rosto.- Eu prometi um autógrafo e você merece... Obrigado, Carlos, você me ajudou demais. Não precisa se preocupar, eu vou voltar pra casa da minha mãe... Tchau...- me deu um outro beijinho e ia sair.

Mas eu já não podia deixar ela sair da minha vida, não sem antes vê-la feliz, de verdade, e não nesse tom de resignação. Eu não podia deixar ela seguir o mesmo caminho que eu, aquele caminho triste e solitário. Agora eu consigo traduzir assim aquele misto de emoções e pensamentos sem direção e o espanto de alguém me descrever tão bem em poucas palavras. Eu podia até já ter conseguido ajudar ela a não ser tão triste quanto eu, mas não era o suficiente. E tudo me fez pegar a mão dela, olhar em seus olhos e dizer numa voz firme que eu não usava há muito tempo, uma voz decisiva e calma:

- Marília, seja sincera, você está feliz?- ela me correspondeu o olhar e balançou a cabeça negativamente, enquanto se virava de frente pra mim.- Como eu pensei... Você precisa do sentido de tudo, não é? Precisa fechar ou reabrir de vez sua história com o Paulo, precisa conversar com ele!- ela ia mexer a boca, mas eu antecipei.- Você não precisa de pretexto nenhum para conversar com alguém que você gosta, só precisa assumir que quer conversar, e, se precisa de segurança emocional, eu vou com você e fico até o fim ao seu lado, eu prometo! Por favor, faça isso por nós dois. Nós dois precisamos saber se segundas chances existem e se as emoções podem mesmo nos fazer felizes!- olhei bem no fundo dos olhos dela, ela sorriu e me abraçou forte parecendo confirmar que ia, mas creio que, se correspondi o gesto, foi simplesmente pra não ficar parado. Acho que ainda não estava totalmente pronto pra apertar o abraço e demonstrar que realmente sentia.

Depois de me soltar, porém, Marília começou a tentar se convencer de que não devia vir até aqui com argumentos falsos. Era perceptível que ela estava com medo. Suas mãos paradas, sem fazer gestos, a hesitação em me olhar e os movimentos laterais de cabeça feitos de maneira rápida e constante acusavam a falsidade de suas palavras; enquanto estas me diziam que já estava tarde pra pegar os três ônibus necessários pra se chegar do outro lado da cidade, por isso era contramão para mim, ele não ia atender e ela não queria me fazer perder tempo. Eu neguei tudo o que me dizia respeito, mas concordei que ele podia não atender, não mentiria pra ela.

Embora eu soubesse que tudo aquilo era o mesmo drama que eu fiz com a carta do envelope rosa, eu via o mesmo medo e o mesmo desejo, a mesma ânsia de saber a verdade não querendo que ela se revelasse de maneira que nos cause dor; quando tentei acalmar ela, por várias vezes pensei até que ponto eu podia ir sem manipular a verdadeira vontade dela, já que o medo estava cumprindo seu papel fundamental de evitar sofrimento, mas estava prendendo Marília numa cadeia de ilusões. Claro que ela podia escapar disso mais fácil que eu e até sem ajuda, existia essa possibilidade, porém, se havia essa, havia a contrária.

E a contrária eu sei bem como é duro de quebrar o gelo que se forma. Leva-se muito mais tempo do que sabendo a verdade, agora eu sei. Por via das dúvidas, decidi deixar de lado a questão ética e arriscar que ela tinha que saber a verdade pra se libertar dessa história.

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Continua... 15/2/12 às 15:00

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Abraços Ed

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Nota de Viagem:

"Nunca deixe para as ruas estreitas da cidade,
A ultrapassagem tranquila
Que se pode fazer na rodovia,
Ou a lentidão do caminhão de grandes toras em frente
Pode atrapalhar a subida do morro e a volta pra casa!"

Edgar Izarelli de Oliveira

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

poesia para juventude!

17 Versos de Juventude

Edgar Izarelli de Oliveira



Que a salvação do mundo seja semeada nos corações desde cedo,

Mas que nunca seja muito tarde pra descobrir a cada dia um novo berço...

Que o amor e respeito possam se enraizar no mecanismo inconsciente,

Que os sentimentos sejam simplesmente aceitos como parte natural da gente

E que, cada vez mais, a coragem racionalize as escolhas em processos conscientes...

Para que o caminhar revele aos sentidos a pequena arte da sabedoria!


Que arte esteja sempre preservada com o carinho de nunca ser silenciada

E que, ao ser regada com o menor raio lunar carregado de inspiração,

Possa estourar em luz a fina casca de banalidades rotineiras do cotidiano...

Que a criatividade germine em qualquer terreno e com qualquer adubação,

Mas traga sempre a mesma felicidade ao se expressar e ser apreciada...


E que toda essa juventude seja apenas a primeira semente de esperanças

Capaz de florescer, sentir e manter a conduta das tão desejadas mudanças,

Porque, pra derrubar as barreiras da estrada, é preciso determinação e auto-confiança,

Mas é fundamental que se mantenha viva a alma inventiva das crianças

Para que o equilíbrio distante se aproxime com a experiência de saber ver,

Nas mais bruscas disparidades, as mais belas semelhanças que se pode transparecer!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Gênesis - 17º Capítulo

Eu estava vendo claramente que as personagens do livro representavam dois lados da personalidade da autora; sim, eu estava certo, ela tem a mente astuta de Pietro e o emocional ardente de Walter e me é inacreditável como os dois trabalham juntos. Parece que quanto mais as emoções dela são tencionadas, mais a razão é capaz de responder à altura, exatamente como no livro, quanto mais Walter parecia louco mais astuto parecia Pietro. Então ela sabe que sua mente trabalha assim... Ou não, mas é assim que o subconsciente dela percebe o mundo e isso se reflete na escrita que ela faz... E eu não parava de me perguntar “então pra que as idéias suicidas?” E a resposta, só ficou clara depois de ouvir a continuação da história que ela falou em tom mais triste...

- Ele me olhou num olhar distante quando me aproximei dele para um abraço bem gostoso, mas o abraço foi frio, embora seu corpo estivesse febril... Ele estava mesmo doente, o que explicava a pouca conversa no carro... Ele me olhava, parecia querer falar algo, mas não conseguia. Eu achei que era muito grave a doença dele, ele já tinha ficado doente antes, mas nunca a ponto de não conversar comigo, nem em casa ele falou comigo, foi direto deitar e acho que ele me viu pelo espelho do banheiro enquanto eu trocava de roupa para dormir, viu que eu não estava com nossa aliança.. Por que no outro dia, ele parecia melhor, mas ainda estava frio... Eu bem que tentei me aproximar, mas não consegui... E na quarta ele... Logo de manhã já tinha as malas prontas... Terminou dizendo que tinha a ver com o pingente, que eu estava sem...- e começou a chorar olhando pra mim.- Eu tentei explicar a verdade pra ele umas mil vezes, mas ele só diz que não pode voltar comigo... Já dei um tempo, já liguei, já escrevi cartas, mas ele não fala mais comigo de jeito nenhum. Acho que ele me acha uma pessoa falsa...- e seu choro aumentou se tornando desesperado- Mas eu não sou!!! Não sou falsa!!! Posso ser louca, burra, ingênua e mais um milhão de coisas, mas falsa não! Foi... Foi por...- e o choro se tornou compulsivo.

- ... Gostar muito de toda a história que vocês tinham, você quis proteger isso, eu sei...- completei num tom sincero que não usava mais, depois de sentir a segunda grande quebra da minha mente. Mentira também corta relações... Eu tinha aprendido a mentir da maneira mais difícil, perdendo relações importantes por ser sincero. Agora rio de mim mesmo! Marília me mostrou que, na verdade, Letícia e eu estávamos errados, embora minha amiga tenha chegado mais perto de encontrar o que realmente minha mente fazia. Eu queria tanto manter uma relação com alguém que tinha sacrificado e até invertido valores. Felizmente ser sincero para mim, é andar de bicicleta. E Marília me deu uma nova relação que eu quero manter. No hotel, eu só pensava em achar uma explicação, um sentido pras ações de Paulo, até por que Marília precisava parar de se sentir culpada e traidora. Ela estava indo pelo mesmo caminho que eu e era isso que eu quis evitar quando disse:- Mas, que materialismo! Terminar uma relação por causa de um pingente! Ta certo que tinha toda uma conotação, mas, mesmo assim, Marília, mesmo somando o fator de uma pequena mentirinha, ainda não faz sentido terminar uma relação de seis anos por isso.- emendei querendo garantir alguma lógica pra mim e pra ela.- Veja bem, pelo que você me disse, a relação de vocês já estava desgastada, talvez toda essa história tenha sido só um pretexto pra terminar, ou pode até ter sido a gota d’água, digamos assim, mas acho difícil conceber que seja o verdadeiro motivo... Ainda mais se incluirmos fatores como ele já estar distante antes de perceber que você estava sem o tal colar, antes até de ir viajar, ele viajar sem você e voltar ainda mais estranho. Pode ter acontecido algo na viagem, algo dele, uma epifania particular, alguma pressão externa...- coloquei todas as cartas na mesa e pude observar seu olhar e sua respiração mudando devagar.- Você está se colocando como promotora, ré e juíza ao mesmo tempo. Você cometeu erros, é humano... Tão humano que a gente só se afirma, enquanto sujeito, a partir do momento que erramos... Não se martirize assim! Você não traiu ninguém, mesmo que ele tenha de fato entendido assim, o que ainda não sabemos se é fato verídico ou se você está interpretando assim por causa da tristeza que está sentindo... Enfim, por mais que ele tenha se sentido assim isso é uma sensação dele. Assuma só o que você fez: Você queria proteger uma relação. Deixa isso bem claro pra si mesma e, veja, você está aprendendo a lidar com esse tipo de reação para que da próxima vez ela não se repita...

- Tem razão... Carlos, eu não trai ninguém! Pensando bem, não faz muito sentido mesmo, Paulo não é assim apegado à matéria, mas sim aos laços... Ele nunca me deu coisas caras, todos os presentes que ele me dava eram mais sentimentais e simbólicos...- refletiu verbalmente, olhando para o canto superior esquerdo do balcão de recepção do hotel, onde haviam alguns vasos de flores, após algum tempo.- Esses dias estive na casa da minha mãe...- continuou ela me olhando com aquele olhar espantado, e mais calmo; me surpreendi, a mente dela só precisava de um empurrãozinho pra encaixar algumas peças fora do lugar. Bom, não devia ser assim tão espantoso, o “pesar”, quadro especifico de depressão que ocorre quando uma relação é cortada por qualquer motivo, demora de três a quatro meses para começar a ceder e é inclusive considerado, no ramo da psicologia, como, senão a mais saudável possível, a reação mais natural ao se passar por uma situação dessa. Eu relaxei quando reconheci melhor o quadro geral, mas ainda não explicava e nem combinava muito com tudo que eu tinha visto. Em todo caso, fiquei feliz de ver que ela estava ao menos com um pé na realidade.- E ela me disse algo assim. Mas, Carlos, não haverá uma próxima vez... O pingente... Foi roubado... E pensar que eu fiquei tão esperançosa quando o encontrei, achei que finalmente Paulo ia falar comigo...Esperava que se eu mostrasse que eu ainda tinha o pingente... De certa forma eu provaria que nunca traí ele... Agora parece besteira, mas quando minha amiga me disse isso, com tanta base na vida dela, hoje à tarde, eu realmente achei que tinha sentido. Me arrumei toda na casa dela, peguei esse vestido emprestado. E ela já tinha até conseguido o endereço dele pra mim... Ela também descobriu que amanhã de manhã ele pega o certificado de mestrado da faculdade e, logo depois, vai embora pro interior... E, Carlos, eu preciso falar com ele, preciso saber a verdade... Hoje era minha última chance e toda minha esperança, tudo que eu havia escrito na carta que demorei a tarde escrevendo, tudo isso que cultivei num único dia foi... Roubado por um mendigo faminto... Se tudo desse errado, Carlos, eu devolveria o pingente... Mas nem isso eu posso mais fazer...- parou por uns instantes, só que dessa vez ela estava serena.

Agora sim, tudo fazia sentido! Ela tinha mesmo perdido mais que um bem material, ela havia perdido toda a segurança de ter algo para fazer com algo material que Paulo apreciava. Por isso o choque ao ser assaltada. Acho que ela nem tinha se assustado com assalto em si, me parece que esse tipo de choque não era nada, simplesmente não teria significado nenhum pra ela, não hoje, não dentro daquela situação. Provavelmente ela tenha sentido toda a dor que viveu nos últimos meses, quando viu o único objeto que representava toda a relação sendo roubado, deve ter sido como perder o Paulo de novo. Agora eu podia entender tudo.

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Continua... 12/2/12 às 15:00

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Abraços Ed

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Frageis Consensos

Frágeis Consensos

Edgar Izarelli de Oliveira


Quando a vida me surpreende com mãos frias

(talvez manipuladas por tiranas linhas inconscientes)

Levando pra longe o valor acumulado dos dias

E virando do avesso a fina trilha de sentidos,

Apesar do acerto e da confluência de mente e coração

Em buscar o humano e o divino no mesmo corpo físico e filosófico

E ter a certeza de ter encontrado o melhor e mais raro tratado poético;

Eu até tento inovar, mas acabo sempre num boicote consciente,

Errando de propósito ao dizer coisas estupidamente sinceras,

Só pra entrar, de novo, no caminho solitário e já tão clássico da minha psicologia

E, assim, repisando velhas falhas discutidas por argumentos já conhecidos,

Tento desvirar os mundos e decifrar os mesmos velhos códigos que me indicam

Qualquer justificativa, qualquer motivo, para esse sentimento de perda,

Para que, ao menos, eu sofra só as velhas criptas de poesias já escritas.

E, mesmo assim, ainda assumo, correndo o risco de cair em contradição completa,

Mas sem sacrificar o frágil consenso com a minha própria essência:

É este o romance enigmático e inteligente que quero continuar escrevendo

Desde o gênesis da inspiração até os últimos três pontos de vagas explicações...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Gênesis - 16º Capítulo

– Você não quis apontar como um erro, mas deve estar pensando que foi sim...- disse ela me olhando nos olhos.- Paulo tinha um olhar muito parecido com o seu quando voltou de viagem, na Segunda de carnaval. Logo percebi, tinha algo errado... Ele me ligou a cobrar da rodoviária, de madrugada com a voz meio triste, me pedindo para ir buscar ele por que estava chovendo e ele estava sem guarda-chuva e gripado... Tudo isso um dia antes do previsto...- ela fez uma pausa, cruzou os braços se abraçando e continuou.- Isso fugiu muito do que eu conheci de meu namorado. Ele sempre foi programado e pontual, sabe aquelas pessoas que, se marcam um compromisso, pode ser o que for... desde entrevista de emprego a festas na casa de amigos... se marcam às, sei lá... 3:18 da madrugada, é exatamente essa hora que chegam... se tem alguém que faz isso é o Paulo, sabe... Ele diz que não gosta de deixar as pessoas esperando, mas também não pode ser adiantado por que tem as coisas dele pra fazer e por que incomoda as pessoas chegar mais cedo... Ás vezes, ele é muito chato com isso, mas eu aprendi com ele a me programar para as coisas importantes. Eu amo até isso nele! Essa capacidade de me ensinar coisas importantes pra vida... Sem dúvidas eu cresci muito com ele e agora...- ela parou e me olhou com cara de quem está quase chorando, mas acabou engolindo o choro. Da minha parte, até me lembrei de tantos medos que havia enfrentado por Felícia e de como eu ainda pensava que a separação havia acabado com meus planos de vida; mas me interessei muito mais pela característica de Paulo e suspeitei de algum trauma muito forte, provavelmente de infância, na vida dele, ou podia ser reflexo de uma educação rígida por parte dos pais ou responsável que utilizou como exemplo. Não falei nada para ela, mas obsessão compulsiva por horários só faz as pessoas ficarem estressadas, ainda mais numa grande metrópole como essa, não ter flexibilidade aqui deve tornar a vida praticamente insuportável. Ela continuou, com a mesma carinha triste e as mãos mais quietas.- Bom... Era estranho demais ele voltar, assim, de repente, sem avisar, mas a esperança dele ter voltado mais cedo por saudade ou para mim cuidar dele...Tanto faz... O importante era que ele queria ir para casa comigo e eu estava pronta pra ele, mas...- ela não agüentou, colocou o rosto entre as mãos e chorou.

E, de novo, aquele choro me prendeu a atenção... Mas desta vez eu descobri por que... De repente, todo o peso da estupidez que eu havia posto nos meus ombros estava sendo retirado. Não era mais tão ridículo assim chorar durante meses por amor, afinal, eu não era o único Walter andando por ai. Walter é o irmão de Pietro, aquele louco que se entregava a cada emoção como se não tivesse outras pessoas no mundo... Pietro podia ter matado ele, mas ao invés disso o mandou para um hospício com um atestado falso de esquizofrenia. Pietro, sempre engenhoso e perspicaz... Como será que ele agiria vendo sua criadora chorar como seu irmão? Internaria ela numa clinica psiquiátrica também? E o que eu, Carlos Magno Vieira, o que eu faria? Sim, eu senti vontade de abandonar as bases sólidas que eu tinha e pedir perdão ao meu passado. Ta, realmente eu sei que eu precisava ter aprendido a usar a razão e nunca desprezarei meu próprio esforço, mas, talvez, naquele momento, eu tenha percebido o quão ridículo é querer fugir do ridículo. Talvez eu tenha sido brusco demais... E, assim, eu mergulhei de cabeça na terapia de choque que Marília estava me dando.

- Esse choro é tão bonito, Marília...- fiz um carinho leve no rosto dela e, gentilmente, pelo queixo, fiz com que ela erguesse a cabeça.- Esse choro mostra que você está sentindo o que está vivendo... Está integralmente envolvida no processo. Não esconda esse choro; não é uma vergonha chorar, talvez seja até um motivo de orgulho...- ela pegou carinhosamente na minha mão e foi como se tudo que minha família e a própria Felícia me alegaram a respeito da inutilidade deste choro se dissolvesse na minha mão.

Eu ainda me lembrava da dor que senti quando minha ex-namorada me disse que chorar não ia me trazer ela de volta e que eu tinha que parar de fazer drama. Creio que foi neste momento que toda a minha defesa começou a ser moldada de acordo com o parâmetro Pietro. Eu podia até aceitar minha família me dizer que Felícia não estava ali pra acompanhar toda a tristeza, mas a própria Felícia... Ela esperava que eu fosse ficar muito bem... Só agora estou realmente me curando de todo o mal que me causei pra sobreviver àquela separação. Só agora me sinto liberado pra me expressar, expressar as lágrimas é realmente uma conquista pra mim. Claro que, só agora, depois de toda ajuda mesmo que inconsciente de Marilia é que posso ver desse modo...

Marilia e Paulo ainda parecem discutir, parece que estão colocando tudo em pratos limpos. Marília com toda a certeza não gostou nada de como ele a havia tratado há pouco, com indiferença e ignorância, como se nem conhecesse ela. De certo, fazia ela se lembrar da madrugada de fevereiro que ela só queria apagar...

- Obrigada, Carlos...- disse ela com um olhar diferente, um pouco surpresa talvez, e apertando minha mão suavemente no rosto dela e, com o polegar, acariciou meus dedos. Aquele olhar foi diferente de tudo que eu já tinha visto, eu não consegui analisar totalmente até agora, talvez por que já nem queira mais. Parecia, sim, um olhar de espanto, mas não era isso, não só isso, por trás daquilo havia mais alguma coisa, uma expressão semelhante à de quem, em filmes, dá carinho por gostar realmente de alguém, mas será que isso existe mesmo?- ... Pena que o Paulo não é assim tão sensível... Sabe, Carlos, eu saí com tanta pressa naquela noite que esqueci de pegar o bendito pingente...- o olhar dela mudou, numa fração de segundos, pra um olhar de raiva, raiva de si mesma e do mundo todo.- Até hoje me pergunto como fui me lembrar só quando já estava praticamente na rodoviária e ai já era tarde demais. Ele não podia me ver sem aquela correntinha dourada no pescoço, era muito importante pra ele. Ele sempre disse que o pingente representava a nossa união por que ele tinha um igual e ele vivia me jurando que nunca tiraria aquilo do pescoço, enquanto estivesse comigo... E eu achava tão lindo que fiz a mesma promessa, como se promessas se cumprissem mesmo... Se ele soubesse que eu estava sem, com certeza terminaria comigo! Eu não podia deixar isso acontecer, eu não suportaria perder ele por um lapso de memória!- com certeza ela tem um ótimo domínio das palavras e muito conhecimento que estavam ofuscados pela depressão.- Abri o porta-luvas do carro e revirei tudo ali até encontrar um pequeno pingente que minha irmã havia me dado há muitos anos atrás e o coloquei no pescoço, a correntinha tinha a mesma cor e eu estava com uma camiseta normal, sem decote, assim ele veria só a corrente... Sei que mentir é feio, mas era pra proteger algo que valia a pena ser protegido... Um amor igual eu nunca vou achar.- ela suspirou e fez uma pausa.

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Continua... 9/2/12 às 15:00

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Abraços Ed

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Gênesis - 15º Capítulo

E, nesse instante, foi que tudo que eu sentia, toda a minha vontade de ajudar, toda a minha humanidade, tudo virou compaixão. As palavras de Marília, a expressão dela, eu já havia vivido na minha própria pele. E como eu me senti injustiçado quando Felícia terminou desse mesmo jeito... Esse tempo todo eu achava que meu caso era único, que mais ninguém poderia ser tão insensível quanto Felícia foi naquele dia e terminar um namoro por causa de uma prova de amor. Mas, de repente, aparece alguém como eu! E justo quem eu menos esperava, uma escritora que usa tão bem as palavras. Sempre tive fascínio por escritores e estou até agora perplexo de Marília ser tão ou mais humana que eu... Eu achava que escrever exigia raciocínio de computador para analisar cada sentido de cada palavra e escolher sempre a mais precisa, mas não é bem assim...

- O que houve?- indaguei, creio que com uma expressão espantada, mas logo controlada, pois minha mente disparou um sinal de alerta para eu tomar cuidado por que estava caindo na rede emocional na hora mais errada, eu tinha que ficar frio e distante para poder analisar o que Marília tinha a me dizer.

- Paulo... Meu namorado e eu estávamos discutindo muita coisa a respeito do nosso futuro e isso estava deixando a relação tensa, eu acho...- explicou Marília fazendo muitos gestos com as mãos.- Eu percebia que ele estava se afastando, mas, sei lá, não conseguia mais confortar ele... Não sei se é bem essa a palavra...- ela olhou para as mãos e retomou um choro mais brando, mas ainda carregado com uma tristeza que precisava ser expressa, era perceptível que ela precisava falar sobre isso e precisava contar a história completa; por isso, não a interrompi e tirei o braço de seus ombros num gesto lento e assumi uma postura concentrada.- Por mais que eu abraçasse ele, por mais carinhosa que eu fosse, por mais calorosos que fossem meus toques, meus beijos, por mais feminina, por mais que eu precisasse dele, nada, nada, nada parecia ser o bastante e acho que ele mesmo percebia isso... Ele notava que estava frio e também tentava fazer diferente, mas não dava certo...-

A essa altura, eu tinha que me concentrar no que ela dizia e controlar tudo o que eu tinha escondido dentro de mim pra não confundir minha vida com a dela... Eu também sentia que tudo que eu fazia com minha ex-namorada já não surtia o mesmo efeito, um pouco antes dela terminar. Se bem me lembro, é uma sensação horrível, a gente vai perdendo auto-estima, vai se sentindo inútil e incapaz de fazer a pessoa da qual gostamos sorrir e depois nem se sentir seguro; e ai vem o desespero e as loucuras de amor; e daí por diante só tem o final da relação. Não quero nunca mais passar por essa cadeia de acontecimentos, por isso aprendi a depender só de mim mesmo, assim nada pode abalar minha auto-estima, mas nada pode elevá-la ao nível de felicidade, um pequeno preço a se pagar... Achei, até essa noite, que isso era um complexo da mente masculina, mas essa mulher me provou tanta coisa...

Essa mulher que está neste instante calada e cabisbaixa, ouvindo Paulo falar alguma coisa, provavelmente em tom áspero e desagradável como se fosse o dono verdade. Percebo isso pela expressão irada no olhar dele, parece que Marília chegou ao ponto de discutir atitudes que ela havia engolido para o bom desenvolvimento da relação e ele agora está devolvendo situações pelas quais ele tinha sofrido por ela. Se fosse há quatro ou cinco horas atrás, Marília assumiria tudo como erro dela e imploraria perdão, mas agora, depois da nossa conversa, acho que recuperei um pouco da mulher excepcional que ela realmente é. E pensar que isso tudo foi por causa de...

- ... E foi por isso que um pouco antes do carnaval, Paulo viajou para sua cidade natal, no interior... Ele disse que passar alguns dias distante de mim ia fazer bem pra nós dois, que estávamos nos machucando muito. Eu concordei.- continuou ela após beber mais um copo de água que peguei na recepção do hotel.- Imaginei que por pior que a gente estivesse, tudo daria certo no final... Durante esse tempo que ele ficou fora, eu fui pra casa da minha mãe... É uma casinha simples na área mias campestre daquela cidade onde você mora ou morava quando te conheci, Carlos... Você deve saber como são aqueles bairros afastados, né?...- confirmei com a cabeça.- Geralmente são propriedades familiares onde há três ou quatro casas no mesmo quintal... E, bom, minha mãe mora numa chácara assim com minha tia, minha irmã mais velha, minhas sobrinhas e uma prima que tem três filhos pequenos... Não sei por que, as crianças me adoram... Foi eu chegar lá e pronto! Tia Marília brinca com a gente, leva a gente pra nadar no rio, vem nadar com a gente, Tia... Aquela alegria inocente sempre me conquista e me contagia sabe... Ser criança é mesmo tão bom!- contou ela num tom mais feliz e com a face inundada por uma luz repentina que a deixa linda, pena que logo depois ela lembrou do fato fatal, por assim dizer.- Eu tirei meu pingente e o guardei pra não correr riscos de perder na correnteza do rio... Eu sabia o quanto era valioso pro Paulo... Ele havia me dado o pingente quando me pediu em namoro e disse que seria a nossa aliança, já que ele tinha outro igual... Paulo sempre tão diferente, tão inovador, ele é espetacular, surpreendente em tudo que faz... É isso que mais me atrai num homem e ele tinha isso de sobra. Depois de seis anos, foi a primeira vez que eu tirei o pingente em forma de coração do pescoço, mas era só pra garantir que eu...- mais um pouco de choro rolou suas faces.- Que ele... Que o nosso amor... Estaria... Preservado! Era só essa a minha intenção! Fiz algo tão errado assim, Carlos??? Eu errei em guardar o colar...??

Eu entendi que ela queria a minha resposta, mas ela não veio por que aprendi a não julgar ninguém entre certo e errado. Eu não podia responder com certeza, podia apenas arriscar algo similar a uma só para que aquele olhar de súplica fosse correspondido de maneira apropriada. No entanto, a compaixão ousada que eu estava sentindo queria responder que Marília estava certa. Ao mesmo tempo, minha mente buscava um modo de encaixar os fatos... Faltava uma parte da história. Como guardar o pingente havia causado uma separação tão dolorosa quanto uma traição? A resposta que consegui me parecia estúpida, mas havia acontecido comigo. E essa resposta foi confirmada após eu ter dito que faltava alguma coisa, não me lembro com quais palavras exatamente, depois de muito pensar.

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Continua... 6/2/12 às 15:00

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Abraços Ed

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Gênesis - 14º Capítulo

Me lembro que ela demorou pra se acalmar, o tempo é que não sei ao certo quanto foi. O choro da minha companheira me prendeu e me tragou de tal forma que me impediu de olhar para o relógio que estava na parede bem em frente. Minha concentração se ilhou em como acalmar Marília. Ofereci água e tentei falar palavras doces, mas acho que minha ironia habitual acabou complicando um pouco as coisas... Então, já que as palavras não deram muito certo, decidi instintivamente ir me aproximando para ter contato físico. Me perguntei por que eu estava fazendo aquilo e minha mente me deu a resposta diretamente: “Contato físico é uma forma primordial de conforto, desenvolvida desde a primeira infância com o colo e os cuidados da mãe. Em outras palavras, é a forma mais básica de relacionamento e comunicação, que se desenvolve até a idade adulta, se tornando, então, toda a expressão responsável pela libido e prazer sexual.” Minha própria introdução de um trabalho para uma disciplina optativa que buscava ligações entre a infância e o comportamento sexual dos adultos.

Mas havia um problema, fazia tanto tempo que eu não tinha um grau tão elevado de proximidade física com uma mulher que não estava sendo paga para isso e, portanto, preparada e receptiva a todo e qualquer contato... Eu não sabia o que fazer, ainda mais sendo estudante já tão avançado de psicologia... Eu sei bem que carinho significa muita coisa e, dependendo de onde se toca, pode ser interpretado de vários modos... Fiquei com medo de tocar no joelho, muito perto das pernas pode indicar interesse sexual, e aí a chance dela me achar um tarado era enorme. Mãos indicam intimidade e ligação afetuosa, mas ela poderia encarar como invasão de privacidade se eu tomasse a mão dela do nada. Pior seria no rosto, pra fazer carinho no rosto ou na cabeça é necessária uma dose altíssima de confiança, já que a máquina motriz, o cérebro, e todos os sentidos humanos estão concentrados do pescoço pra cima. Nas costas então, ponto cego, nem se fala o grau de confiança tem que ser quase sobrenatural... Eu não tinha um ponto seguro do corpo dela pra tocar, todos estavam ou ligados ao sexo ou a uma relação de extrema confiança. Creio que mexia muito as mãos enquanto pensava onde eu poderia fazer um carinho sem que ela se sentisse invadida... No ombro! Mas, que coisa! Só agora me lembrei, o ombro é como um ponto neutro do corpo, talvez o único.

Na minha indecisão, Marília deve ter percebido que eu estava inquieto e deve ter percebido minha intenção pelo modo com o qual eu aproximava a mão da mão dela, às vezes do rosto, mas nunca chegava a tocar... Ela pegou minha mão e segurou um pouco entre as suas, depois, lentamente aproximou minha mão de seu rosto e acariciou-o com as costas dos meus dedos... E eu enxuguei algumas lágrimas dela... E ela encostou a cabeça no meu ombro, já mais confortada e mais aberta. Por fim, ela colocou meu braço por trás de seu pescoço e minha mão no braço dela segurando minha mão com certa força e, depois de uns segundos, parou de chorar.

- Faz mais de três meses que não me sinto assim...- disse ela num suspiro relaxado e profundo.

- Assim, como?- naquela hora eu não entendia direito as emoções de Marilia.

- Tranquila... Segura...- me explicou ela, como se fosse óbvio.

- Como pode se sentir segura com um estranho?- estranhei parecendo um filósofo, mas creio que um leve sorriso apareceu por ter conquistado a confiança dela.

- Mas você não é um estranho...- disse ela num tom reflexivo e carinhoso.- Não depois de tudo o que você já fez por mim essa noite... Você podia ter me deixado a qualquer instante, mas você está aqui até agora, entende? Além do mais, realmente, não me sinto nem um pouco ameaçada por você. Acho que você só quer mesmo me entender e me ajudar...

- Bom, em uma coisa você tem razão.- falei em tom ameno e claro ao perceber que ela estava fazendo carinho na minha mão com o polegar.- Eu quero te entender... Quanto ao resto, eu já não sei...- ela me olhou e apertou minha mão como quem diz que não quer ser abandonada.

- Carlos...- ela ainda estava escolhendo as palavras, me chamou só pra não perder minha atenção e, sabendo disso, permaneci com o olhar fixo em seu rosto.- Eu não tenho nem dormido direito de tanto que minha história tem me machucado...- disse ela limpando os olhos com um lenço retirado da bolsa. Boa parte da maquiagem borrada ficou no papel e, por trás da sombra dos olhos dela, haviam olheiras causadas pelas noites mal-dormidas. Percebi, naquele gesto, certa necessidade de provar que realmente ela estava sentindo muita angústia e que as noites de insônia de fato ocorriam, mas ainda era cedo pra julgar se era pedido de socorro ou obsessão pela verdade.- Meu namorado... Depois de seis anos... Terminou comigo... Na quarta-feira de cinzas... Estou mal desde então, pois sei que ele está com a razão, mas...- suspirou.- Queria que ele me entendesse... só isso...

- Hum... E qual foi o motivo da separação?- e minha mente já se armava na defensiva... Casais se separam todo dia, é normal, absolutamente normal...- Se não quiser falar...- completei, afinal se ela ainda estava tão machucada, era bom dar a opção. Às vezes as lembranças torturam nossas emoções e eu me lembro que foi por isso que escolhi abandonar e reprimir o meu lado emocional... Não consegui apagar Felícia da memória como eu queria, mas tirei todo o sentimento das lembranças... Ou, pelo menos, imaginava ter tirado até ler aquela carta... E a imaginação criou uma certa realidade que me permitiu viver com segurança até aqui.

-Eu trai ele....- disse ela suspirando e olhando pro chão, depois de um minuto de reflexão.- Quer dizer, na verdade, ele se sentiu traído... Eu só queria proteger o que valia a pena, o nosso amor. E aí ele disse que era melhor terminar...

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Abraços Ed


sábado, 28 de janeiro de 2012

Gênesis - 13º Capítulo

Ela me olhou profundamente, como quem deseja se sentir seguramente confortável antes de falar qualquer coisa. Depois de alguns segundos, seu olhar mudou para uma expressão de quem diz que será uma longa história. Eu a olhei por inteiro tentando prestar atenção aos mínimos gestos. Ela segurava a bolsa na frente do corpo numa postura reflexiva, mas a expressão de sua face estava aberta, apesar das lágrimas que manchavam sua maquiagem. Maquiagem que só naquele instante eu tinha notado. Ela me olhava nos olhos e eu sabia que tinha que falar alguma coisa, mas a atmosfera criada entre nós era tão intensa e de isolamento que, mesmo sobre o efeito daquele olhar que me sondava e se sondava junto, não tinha palavras pra tentar uma aproximação. Ela então, olhou para a bolsa e tive a impressão de que ela estava se distanciando. Tenho a lembrança de ter dito algo sobre a bolsa, não me lembro o quê, mas só pode ter sido isso por que não imagino que outra coisa poderia ter gerado aquela resposta...

- Por que você é assim, tão materialista?- contestou Marília erguendo rispidamente a cabeça com um olhar incisivo.

- Porque, no fim das contas, tudo o que temos nesse mundo é nossa mente e aquilo que conseguimos por nós mesmos!- retruquei acentuadamente e ainda continuei como se eu acreditasse mesmo nisso. Bom, naquela hora eu ainda acreditava, mas agora eu mesmo me contesto sem saber exatamente no que acreditar.- Você só pode pesar coisas concretas. As emoções e sentimentos, por mais fortes que sejam, um dia se desfazem, os vínculos entre as pessoas sempre se quebram! E aí sobra só o que nós temos de concreto! O resto é vazio e sem sentido. E o que nós temos como certo é só aquilo que conquistamos, nossa vida e a certeza da morte!

- Você está errado, tem que estar...- disse Marília abaixando o olhar.- Não. Tem pequenas coisas que não têm preço, não há valor que recompense a perda dessas coisas. Eu sei por que acabo de perder algo muito importante. Você diz que tudo que tem valor ainda está aqui na minha bolsa, mas falta um pequeno pedaço de cristal que resumia grande parte da minha vida.- e chorou tentando expressar uma parte importante dela pra que eu pudesse ver mais de perto.- Não tem nada especial na sua vida? Você nunca ganhou algo que guardou com carinho porque significa algo relevante, mesmo que seja uma besteira, um bilhete, um origami... Enfim, algo que te faça chorar?

- Espera aí! Tà me dizendo que você ta chorando por uma pedrinha barata???- disse surpreso e depois de alguns segundos, continuei.- Um bilhete? Uma dobradura de papel? Entendo que pessoas chorem quando perdem algo de valor, uma casa, um carro, um celular com os telefones das pessoas queridas...- eu tinha esquecido completamente dessa carta num envelope rosa; naquele instante talvez eu só quisesse entender o que estava acontecendo nessa noite incomum de outono, durante a qual não só as folhas e flores dos ipês, mas os sentidos que montei com todo o cuidado pareciam cair como resultado de uma brisa qualquer.- Mas chorar por um pedaço de vidro...

- Não...- disse me olhando nos olhos, a escritora, sem nem fazer a mínima força pra tentar conter ou disfarçar os soluços e as lágrimas.- Era uma jóia falsa em formato de coração... Não... Não é pela jóia que eu choro, é pelo resto... Todo o resto, as últimas esperanças... Minhas últimas esperanças e sonhos passavam por aquela pedrinha de brilhante e pela carta... A carta, Meu Deus... Eu tinha escrito com o coração... Tinha... Eu tinha colocado tudo que eu precisava dizer naquele pedaço de papel, cada gotinha de sentimento... E foi tudo roubado, tudo!... Até a boa-ação que queria fazer pra compensar meus pecados... Até isso me foi roubado! Roubado!!... Aquele homem, coitado!... Não vai conseguir comprar nem pão... Nem pra dois dias!!... Aquele cristal deve valer uns dois ou três reais... Mas valia o mundo inteiro pra mim...- e depois da declaração cortada e incompleta, Marília se entregou ao choro e se isolou nele. Não importava o que eu fizesse ou falasse, ela continuava chorando...

Marília continua tentando fazer Paulo reagir, mas ele parece cada vez mais convencido de que a decisão dele está certa e demonstra claramente o desinteresse marcado pelo olhar totalmente vago, lançado ao horizonte, a postura fechada. Os braços cruzados e a acomodação de estar encostado de lado no batente da porta, dão a nítida impressão de que ele nem está ouvindo a pessoa que por anos dividiu tudo com ele. Parece que ele está ouvindo uma música bem alta num fone de ouvido. Só deve permanecer ali por algum respeito.

Felícia sempre me escutou. Meus olhos agora exibem algumas lágrimas também, acho que não aguentaram a curiosidade e leram a carta amassada de sete anos atrás. Mas não sei definir o que estou sentindo agora, só sei que não é amor, ou talvez só agora seja amor de verdade, sei lá... Fato é que minhas emoções afloraram de vez... Depois de sete anos mantendo a esperança lacrada num envelope, poder ler algo assim mexe com qualquer um, embora de maneiras diferentes...

“Carlos meu anjo, você devia estar preparado pra tudo sei que ninguém pode prever uma separação mas sei lá... parece que você ta forçando demais a barra... você sabe que nada do que você está fazendo vai me levar de volta pra você! Tudo o que você tem me dito, amor, não ta mais fazendo sentido nenhum... Eu confesso que me senti traída quando você me disse aquilo mas já passou eu sei o que você sente por mim só não sei se posso voltar e corresponder como era antes apesar de ainda te amar muito... na verdade eu já tinha percebido que nosso relacionamento já estava enfraquecendo eu já tava fraca você ainda veio falar aquilo tudo... Mas se é tão importante assim pra você... Vem conversar comigo, vamos tentar fazer do seu jeito... eu também preciso de algumas certezas que só terei com você então vem, mas por favor vem sem planos, nenhum de nós dois sabe realmente o que vai rolar e se te conheço bem você vai demorar algumas semanas pra me procurar, vou esperar você me ligar. não vai ser igual mas pode ser melhor como você disse... e se não for mesmo assim acho que temos mesmo que conversar olhando nos olhos como sempre fizemos e resolver isso de uma vez... beijos com carinho Felícia”

Poxa! Ta, legal... Confesso que não esperava assim tanta disposição... Ela tinha decidido me dar mais uma chance, a chance que eu tanto implorei! Felícia... Eu vivi sete anos numa esperança que podia ser real... Sete anos! É engraçado! Na verdade, não sei se é isso mesmo que me faz rir... Não sei se é engraçado, ridículo ou patético, mas sei que para quem me olha de fora devo estar parecendo feliz, devo estar rindo... Não é desespero, mas me sinto desnorteado... Quantas mil vezes eu tive vontade de ler essa carta, mas resisti racionalizando que tudo tinha acabado e armando defesas atrás de defesas???... Quanto tempo perdido, quanta vida perdida! Uma carta que não tive a hombridade de ler! Se eu tivesse lido antes até teria procurado pela dona daquela caligrafia irregular e meio quebradiça, mas feita com a caneta forçada no papel... Determinada ela sempre foi, pena que era orgulhosa demais e de temperamento inconstante...

Mas o engraçado é que sempre pensei que quando lesse essa carta me sentiria triste, mas acho que todo o meu esforço pra aprender a não me deixar levar não foi de todo em vão, pois, embora eu esteja lembrando de tudo que vivi com Felícia, sinto apenas saudade, não amor. Se me fosse permitido acho que iria procurá-la só para dar um abraço e deixaria o resto da vida acontecer, mas... Sete anos não são sete meses... Ela já deve ter casado e quem sabe tido até filhos, não deve mais nem se lembrar de mim... Por que estou olhando para o céu? Essa noite nublada e fria com traços de garoa está me lembrando a mim mesmo... Estou refletindo no ambiente a minha mente cheia de dúvidas e só um pouquinho lamentosa... Como teria sido este encontro ou essa vida alternativa? Acho que não teria dado certo, estávamos muito machucados pra tentar de verdade voltar... Mas e se, por acaso... Se por acaso, eu marquei a vida dela como ela marcou a minha... Ela pode até ter se envolvido com alguém, se casado até, mas ela... pode estar esperando por mim... Ela pode estar olhando para o céu também... Ela gostava das estrelas... Nossa! Quanta besteira estou pensando... É possível dar uma segunda chance a uma mesma emoção? Me pergunto ainda...

Marília tinha mesmo razão... A carta me surpreendeu. E agora, o que fazer com essa emoção??? Como de costume, Felícia transcrevia sua mente na escrita, ela estava sendo sincera ao escrever, mas eu percebo certa confusão... A ausência de cuidado na hora de usar as palavras sempre foi marca registrada dela. Mas, na época, isso era o de menos. Me lembro até com certa empatia de tudo o que vivemos, mas depois de tanto tempo não sei o que fazer... Minha mente racional está sem respostas, sem reação, enquanto as emoções se amontoam contraditórias. Agora entendo a mensagem real do livro de Marília... Agora entendo Pietro...

E pensar que isso tudo veio se desenrolando desde que Marília finalmente respondeu tudo o que eu queria saber, após eu ter conduzido ela a um hotel que ficava ali perto, na avenida, pois ela estava quase caindo, seu corpo já não tinha energia para ficar em pé tamanha a intensidade do choro. Nos sentamos num sofá no hall e procuramos ignorar os olhares estranhos da recepcionista a quem até cheguei explicar a situação, mas, pelo visto, minha sinceridade mal-treinada não tinha convencido muito...

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Continua.... 31/1/12 às 15:00

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Abraços Ed

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Gênesis - 12º Capítulo

- Eu gosto deste beco, tem meus olhos, meu rosto, meu cheiro e tudo o que percebo de minha intimidade, este beco é meu mundo. Um cubículo escuro espremido entre prédios.- dizia ela, eu posso ter perdido algumas palavras, mas o tom dessas não me pareceu de todo triste. Parecia mais reconhecimento lúcido, embora a voz de choro quase escondesse uma carga pesada de ironia.- Só tenho duas saídas: a pequena abertura por onde entrei me mostra, como janela, o abandono usando drogas e mulheres mentindo pra si mesmas, por necessidade, pra realizar os verdadeiros desejos dos homens estranhos...- o tom mudou para uma mescla de uma observação, que me pareceu muito crua, distante e nada pessoal naquela hora; mas, agora, entendo melhor a metáfora: ela estava tentando se ver de fora e de dentro ao mesmo tempo; tudo misturado com um pesar que perguntava a si o que as pessoas estavam fazendo. Ela fez uma longa pausa quase como se censurasse algumas palavras e escolhesse outras idéias, depois, continuou, num tom completamente diferente, intimista e profundo; dividindo o coração em partes, tentando numerizar sentimentos. Agora, sim, falava dela, mas era tão semelhante a mim, ao que eu tento fazer com minhas emoções.- A cidade levou das minhas mãos o meu coração, o coração de vidro que eu tinha acabado de resgatar da bagunça de um quarto de lixo, dois quartos de solidão, um terço de esperança, um ciclo de tristezas cruas, e quatro quartos inteiros de medos trancados que tive que encarar, sem querer e sem pensar...- outra pausa, e eu me perguntava o que a metáfora do coração de vidro roubado podia significar...- Se eu tinha meia chance com um coração transparente e lúcido, agora, sem nada nas mãos, sou eu mesma um nada, um vazio, e ocupo lugar de alguma lata de refrigerante que, mesmo vazia como eu, ainda pode ser reciclada.- prosseguiu Marília, fazendo cálculos condicionais, e, pelo estalido metálico que se seguiu à última frase, deduzi que ela esmagou uma latinha com o pé e depois a pegou. Falou a última frase que realmente me convenceu, era mesmo depressão.- Talvez esteja na hora de abrir as asas de corvo e subir aos céus pela outra saída.- e, em tom solene e frustrado, mas com certo teor de prazer, finalizou, assinando.- O beco, Marília Buonicelli.

Me aproximei, numa tentativa de chegar de leve, com a intenção de ser agradável; tinha a bolsa dela como pretexto e a poesia que, em mim, atuou como um calmante, para aliviar um pouco meus passos. Eu achava que ela estava tentando se re-equilibrar, mas logo ficou claro que, mesmo se essa fosse a intenção da poesia, o que, particularmente, coloco na forma interrogativa, não havia obtido o resultado desejado. Marília estava tremendo, enquanto se ameaçava com a parte mais pontiaguda de uma latinha de coca-cola amassada apontada para o pescoço. Sua expressão mostrava claramente que a razão emocional estava desafiando o instinto de auto-preservação. As mãos representavam por si toda a sua intimidade, a esquerda empurrava a latinha em direção à traquéia, a direita segurava a esquerda. Não me lembrava bem, mas eu estava torcendo para ela ser destra.

Eu sabia que agora eu precisava agir, mas, mais do que qualquer coisa, eu tinha que ser preciso; eu só tinha uma chance de dizer as palavras certas, afinal sendo ela uma escritora, a palavra valia alguma coisa pra nós dois. A pressão da escolha das melhores não era assim tão elevada, se comparada com a luta pra não agir por impulso. Acho que achei uma situação onde tudo o que fiz pra congelar as emoções, todo aquele treinamento pra me parecer com Pietro, tinha sido útil.

Analisando rapidamente tudo o que podia, percebi que ela não havia escolhido aquele lugar à toa. Ninguém escolhe absolutamente nada ao acaso, sempre tem alguma mensagem, algum estímulo, nem que for inconsciente que interfere no julgamento. Isso já era provado há tanto tempo, desde que começaram a fazer interpretação de sonhos. E aquilo me puxou, de alguma forma, a lembrança das aulas sobre pesadelos.

A própria circunstância me trouxe claramente a imagem de um pesadelo clássico. O ambiente representando o campo das emoções que influenciam nas ações. A poesia também me fez acreditar nisso, o beco não era apenas um local onde ninguém a incomodaria, era mais a manifestação física mais próxima do que ela estava sentindo. Mas por que o pescoço, não os pulsos? Beco, pescoço... Tinha alguma relação... Tinha que ter. Sufocamento. Ela estava se sentindo sufocada pelas emoções. Parecia cabível, mas não se encaixava totalmente. Foi, então, que meu subconsciente me trouxe à memória outra passagem do livro que Marília escreveu. Uma das reflexões de Pietro que tinha caído como uma luva para mim: “A sinceridade das palavras, minha amiga, nada significa diante das aparências dos atos, por isso tantas vezes eu menti, polpa um pouco de desilusão, sabe?” Ah, Pietro! Até hoje todo que você filosofava tinha mesmo razão de ser, mas agora tudo está em xeque... Bom, a noite ainda não acabou... Posso ter surpresas.

Marília agora está segurando a mão de Paulo, impedindo que ele entre e feche a porta. Creio que, depois dos pequenos gestos de carinho, Paulo decidiu entrar, julgando que a conversa já não levaria ninguém a nada, mas a escritora ainda tinha algo a dizer e eu reconheço o gesto que ela está fazendo, acariciando a própria face com a mão dele.

- Marília, trouxe sua bolsa...- falei em voz baixa, creio eu, naquele beco.- Olha, eu não sei se...- respirei fundo e medi bem as palavras.- Se você se lembra, mas há sete anos a gente teve uma boa conversa a respeito de um brilhante trabalho de sua autoria...

- Carlos, por que está me seguindo?- indagou ela em tom claro de quem se sente invadida.- O que você quer de mim?

Eu podia ter dito qualquer mentira que se prestasse a sair, mas tem horas que a franqueza é tão espontânea que, quando percebemos, ela já foi dita. Quando me vi falando verdades sem pensar nas consequências eu já sabia que o caminho estava se tornando perigoso. A primeira barreira tinha caído e eu teria que sustentar firme a segunda, a relação não poderia passar de psicólogo/paciente.

- Conversar com você e, quem sabe, depois ganhar um autógrafo.- disse eu olhando fixamente para o rosto dela.- Quero ter a chance de ajudar a criadora do Pietro que me ajudou tanto a passar por momentos difíceis. Marília, você me ajudou muito, Pietro é meu modelo mental...

-Você...- disse ela soltando a latinha e rindo.- Que pena! Sete anos e nada mudou... Continua com Pietro como mo...- e riu de novo.- Deixa pra lá!

- O que é tão engraçado?- estranhei aquele riso tão espontâneo vindo de alguém que estava em depressão profunda. Aquilo aguçou todos os meus pensamentos, afinal, nunca tinha visto ou lido, nem mesmo ouvido nada similar.

- Carlos, você é feliz?- perguntou ela com aquele olhar profundo expressando a tristeza que ela sentia.

Eu não soube o que dizer. Pensei em frases simplistas, mas... Ah! Qual a graça de mentir e ainda tentar a simplicidade? A conversa tinha ganho, de repente, algo a mais com essa pergunta direta e tentar desmerecer o que estava acontecendo com jargões populares, não sei por que, mas não fazia sentido. Era melhor continuar no tom íntimo, mas, é claro, sem perder as minhas próprias rédeas. Me surpreendeu tudo isso; quer dizer, ela mal me conhecia e já tinha tocado assim, sem mais nem menos, no único ponto fraco da minha orgulhosa rede defensiva. Era o ponto fraco por que não tinha um argumento sustentável a longo prazo. Felicidade estava longe de ser um medo, mas ninguém, desde que eu vivi meu processo de renascença pós-separação, tinha ousado me perguntar isso, tamanho foi meu distanciamento e minha reação de descrédito para com os relacionamentos humanos. Nem eu mesmo me permitia indagar se estou sendo feliz. Falando a verdade, a pergunta que eu mais me fiz durante sete anos foi “e agora Carlos, como você vai interpretar os fatos, que compõem a fina rede daquilo que se chama de realidade, para que eles não te machuquem de novo?” Pessoas costumam me perguntar por que sou arrogante, por que sou tão duro, tão sério... Letícia é que às vezes pergunta se está tudo bem e costumava se impressionar com minha reação inabalável. Sempre estou bem, mas se estou feliz é outra coisa!

- Sinceramente, eu não sei o que é felicidade há um bom tempo, Marília...- disse em tom reflexivo enquanto eu entregava a bolsa para dona pela terceira vez.- Mas talvez seja melhor assim, sempre bem, sem momentos de tristeza ou sofrimento. Tudo perfeitamente controlado...- Marília me olhou com um ar de repreensão, mas mesmo assim continuei.- Sabe, a vida foi me ensinando a ser forte e pra ser forte a gente tem que se conhecer muito bem, por que. no final das contas, tudo o que temos é nossa mente e ás vezes nem ela...- ela começou a chorar e pegou a bolsa da minha mão.- Mas, será que você pode me contar o que está acontecendo com você?

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Continua... No dia 28/1/12 às 15:00

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Abraços, Ed