EdLua.Artes

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Blog mantido por Lua Rodrigues e por mim. Trata de Artes, Eventos Culturais, Filosofia, Política entre outros temas. (clique na imagem para conhecer o blog)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Edital público (só para mulheres)



Edital Público (Procura-se uma bela dama de companhia!)
Homologado e realizado por: Edgar Izarelli de Oliveira

Do objeto deste edital:

Procura-se uma bela dama de companhia,
Que obedeça a maioria dos preceitos daquele estilo antigo:
Moça meiga, gentil, bem-educada e atenciosa,
Para acompanhar delírios de um poeta solitário.

Das especificações essenciais para as proponentes ao cargo:

Não precisa ser jovem nem ter um corpo escultural,
Mas é fundamental que tenha a elegância de usar sempre vestidos longos.
Não precisa ter nada parecido com ingenuidade ou pureza espiritual.
Deseja-se alguém que saiba conversar em alto nível intelectual,
Mas é de crucial importância que haja tal sutileza no sorriso;
Tal encanto no olhar; tal maciez no tom de voz e no jeito de falar;
Tal leveza nos gestos, no jeito e na postura do andar,
Que a impressão de timidez transmitida pela sua aparência intimista
Desafie a complexidade bem articulada de suas idéias expressivas
E abisme qualquer ponto de vista, surpreendendo todas as expectativas!
Procuras-se uma bela dama de companhia que tenha a arte como estilo de vida,
Se delicie a dançar, cantar, atuar, escrever, desenhar, pintar e fotografar;
Seja ativa, altiva, reativa, relativa, criativa, seletiva, sensitiva e intuitiva,
Mas é de cabal importância que saiba se deixar apreciar, ser cativa sem ser passiva.

Das especificações do serviço a ser prestado:

Procura-se uma bela dama de companhia que se deleite em saraus e salões,
Enfeite depressões, enfrente alterações, esquente soluções, invente seduções
E aceite, de vez em quando, os encargos de uma musa de contradições.
Procura-se uma bela dama de companhia que ensine novas lições,
Faça novas traduções, evite traições e dizime a uma as extremas-unções.
Procura-se uma bela dama de companhia que ainda tenha sonoplastia nos seios,
Que não ligue para os defeitos, que desamarre passados feios, descubra novos efeitos,   
Tenha prazer sem escrúpulos ou receios, mas que saiba quando usar os freios
Pra não inverter a história e colocar o fim no começo nem se fechar aos meios
Que a comunicação corporal exige durante os possíveis devaneios!    

Da inscrição:

Procura-se uma bela dama de companhia que se entregue em qualquer data,
Que chegue silenciosamente decidida e impressione pelo calor do beijo
E pelo abraço apertado que se concentra e não se contenta enquanto não formar laços!  

Dos honorários vitalícios referentes a este edital:

Procura-se uma mulher excepcional que possa amar e ser amada
E se sinta grata em receber como paga tickets de carinho, cestas de respeito,
Ações poéticas, notas de alegria e pequenos dobrões de ouro de um amor desvalorizado!
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Boa Tarde, Gente!
Isso é uma brincadeira poética que saiu de uma outra poesia minha, a "Um tempo pra mim", na qual escrevo:

"Talvez ouça falar de mim...

Talvez me veja vagar pelas ruas distantes da tv à procura de um abrigo que me contente;
Ou, vai ver, me encontre numa esquina promovendo leilões deste meu amor barato.
Quem sabe até esbarre na minha tenda cigana onde faço minha filosofia valer futuros;
Mas creio que a solidão ainda me é mais complacente que a vida atribulada de amante.
Talvez, no futuro, eu ainda arrisque colocar em jornais um classificado que anuncie
A minha antiquada procura por uma bela e gentil dama de companhia."
Foi dessa poesia que tirei toda a idéia dos Classificados!

Abraços!
Ed

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Procura-se um bom remédio pra um coração partido



Procura-se um bom remédio para um coração partido!
Pode ser comprimido, injeção, emplasto, pomada, cirurgia...
Pode ser medicina chinesa ou até alguma nova terapia...
Qualquer coisa que não tenha os péssimos efeitos colaterais
Daquele xarope de tempo que todo mundo usa
E prescreve aos amigos, ignorando contra-indicações.

Afinal, quem diria que respirar saudade
Poderia queimar assim meus pulmões?
Quem diria que engolir raivas frias
Alteraria tanto assim minhas funções hepáticas?
Quem diria que beber amores amargos
Poderia embaçar tanto minhas visões?
Quem diria que tomar tantas doses de dor
Formaria pedreiras inteiras nos meus rins?
Quem diria que comer sonhos pela metade
Declinaria tanto assim minha força física?
Quem diria que tragar mágoas ácidas
Poderia ressecar assim meu intestino?
Quem diria que me deliciar com a solidão da madrugada
Poderia causar chiados constantes nos meus ouvidos?
E empurrar goela abaixo a realidade feitas com mãos erradas,
Quem diria que baixaria tanto assim minha resposta imunológica?

Procura-se algo mais eficaz que o tempo...
Procura-se algo que se assemelhe ao abraço da minha paz.
Procura-se algo que pareça a prática fotografada de um milagre.
Procura-se algo que me lembre a filosofia mais perfeita do amor.
Procura-se algo que recorde a história que ficou incrustada em meu coração.
Procura-se uma ilusão, uma nova paixão, alguém inalcançável pra amar!

                                                                       Edgar Izarelli de Oliveira

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Aproveitando o post.... Dia 13, estarei em Santos para lançar "Infinitivos: Onde tudo é Possivel", no CaiSarau.

Poesias, músicas, fotografias, danças, grafites. Artes em geral tirando a maior onda na Baixada Santista.

Lançamento do Livro Praga de Poeta de Victor Rodrigues
Exposição Fotográfica de Fernando Diegues
Lançamento do Livro do Poeta Edgar Izarelli de Oliveira


Espaço para brechó. Caso tenha alguma peça de roupa, sapato, bijuterias e afins traga-o.

Microfone aberto.
Bora cá conferir!

Local: Bistrô – Barzinho localizado na Rua Silva Jardim próximo ao numero 95 – Em frente a UNIFESP Santos
Data: Sábado, dia 13 de outubro de 2012.
Horário: às 17h30




quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Primeiros Classificados



Procura-se um novo poeta
                                               Edgar Izarelli de Oliveira

Procuram-se as minhas mentiras,
Porque as minhas verdades eu já conheço
E, pra ser sincero, já me enjoaram!

Procuram-se as minhas ilusões,
Por que vivo em realidades que não desejo
E, pra ser bem franco, já me enojaram!

Procuram-se minhas artes,
Por que as ciências é que me parecem devaneios
E, pra ser bem prático, minhas teorias é que me condenaram.

Procuram-se novas histórias pra contar,
Por que contar sempre a mesma já está me causando desnorteio
E, pra ser bem correto, os mesmos roteiros me desordenaram!

Procuram-se novos sonhos,
Por que, nestes cantos, o peso da insônia já interveio
E, pra ser bem carente, os pesadelos é que me despertaram.

Procuram-se novas emoções também,
Sentir sempre as mesmas já me privou de muitos sentidos e ainda estou num tiroteio
E, pra ser bem direto, mais de uma vez as mesmas balas me acertaram.

Procuram-se novas poesias,
Não quero mais falar de sentimentos que desconheço
E, pra soar bem poético, posso afirmar que meus amores me enterraram.

Procura-se, dentro de mim, um novo poeta
Que consiga me fornecer outros começos
E, por ser bem discreto, outras formas que já me libertaram.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Nova linha de trabalho....




Classificados
                                   Edgar Izarelli de Oliveira


Meu coração é um velho decrépito
Que rasteja pelas ruas da cidade,
Arrastando sua sacola preta cheia de palavras,
Recolhendo mágoas em lata de lixo e solidão em caixas de papelão,
Pra trocar por moedinhas de esperança na bolsa de valores de um novo decreto!
E, para conseguir algum crédito com os gerentes do Divino Comércio,
Vive espalhando poesias nas esquinas, nos semáforos, nas portas das faculdades,
Nas mesas dos bares, nos quartos de motel, nos parques, nas praças...
Mas que valor tem a poesia? É apenas uma extensão de significado em vaga expressão...

A poesia não tem valor para quem passa sempre apressado
Nem pode ceder alívio aos corações estressados,
Já que não pode mudar para verde o sinal fechado
E fazer andar as vidas nos solitários veículos parados...
A poesia não tem valor nenhum para pesquisas cientificas
Nem para bêbados que querem esquecer um pouco o peso da vida.
A poesia não tem valor para casais apaixonados que buscam um prazer imediato
Nem para pessoas normais que preferem manter o coração congestionado...

A poesia não vale nada pra quem, depois da correria diária, chega cansado em casa.
Muito menos pra quem sai às cinco da manhã pra procurar emprego e volta frustrado.
A poesia é exigente e seletiva antes de ser parte macia de um lugar confortável.
A poesia é trabalho, é crescimento, não serve pra relaxar, mas ameniza o fardo.  

A poesia não tem valor nem mesmo para os artistas
Para eles, a poesia é uma amiga bem-quista e muito confiável.
Para os poetas então... nem se fala! A poesia é presença física
Que lhes dá, como a mulher amada, um prazer incomensurável...
Para quem está sempre se doando a ela pra ser pista de pouso de aeroporto,
Recebê-la nos braços é perceber que a vida é mesmo algo inestimável!

A poesia só tem valor para alguns, para poucos, para raros, para os belos...
Para aqueles que sabem parar pra se admirar sem temer o preço que se paga
Pra mudar o foco e perceber que o mundo exterior é inalcançável,
O interior é inexplicável... E, mesmo assim, a poesia fala! A arte não para!  
A poesia só tem valor pra quem realmente se ama e pra quem muito se engana...

A poesia que meu coração se exaure para distribuir,
Só terá valor quando toda essa gente se lembrar de assumir que sente
O amor vibrar, a angústia contestar, a alegria espreguiçar e a tristeza ruir
O corpo da realidade materialista que prende a alma à mente...

Meu coração revoltado se deixa à margem da beleza da poesia
E, só pra conservar a prática da escrita, dedicar-se-á aos classificados!
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Boa tarde, gente!
Essa poesia é a abertura de um novo trabalho na minha poética. Não se trata de uma idéia totalmente original. Creio, até, que foi recorrente em décadas passadas, mas, para mim, é um novo estilo que venho pensando em desenvolver há anos e que ficou mais forte nos últimos meses... Decidi começar a desenvolver... A poesia acima é uma exposição de motivos e uma introdução a essa nova linha, digamos, comercial... Mas, pra quem gosta dos outros estilos, aviso que podem ficar calmos, essa linha vai ser paralela ao "Bom Dia", o estilo principal continuará sendo o mesmo...  
Abro agora a linha de "Classificados".
Abraços Ed!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

"Um dia frio", um bom lugar pra ler poesia.. "E o pensamento lá em você" e tudo me Inspira!


Um dia de Inverno
                                   Edgar Izarelli de Oliveira

Agora a primavera já é fato consumado
E ainda há este outono temporão em mim,
O colorido que maquia a secura do fim
E engana o coração num beijo sucateado...

Eu já estava até me acostumando com um novo ritmo de vida,
Mas já que o expresso do inverno reapareceu por um dia,
Gritando a última chamada, última saída, abraços de despedida...
Aproveito pra tornar à alegria e retomar minha alma sadia!

É hora de resolver assuntos inacabados, amores pendentes, saudades latentes.
É hora de quitar as dívidas, fazer as pazes comigo e com o que sobrou da gente.
É hora de me abrir para o que pode haver de novo, o inesperado, o surpreendente.
É hora de fazer a transição, a transcrição, completar a transação, acertar a translação
E partir a uma órbita mais alinhada ao redor de outra estrela que guie minha evolução.
É hora de encarar a solidão a frio, recolher os fragmentos e consertar o coração. 

É hora de tirar o peso dos lençóis, dos cobertores, do edredom
E aproveitar o frio pra concentrar algum sentimento tão quente
Que me permita sobreviver ao inverno constante dos olhares alheios.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Fazia tempo que não vinha uma poesia de duas páginas...


Minhas Amantes
                                  Edgar Izarelli de Oliveira

Eu amo a Poesia.
Já cheguei a declarar que ser poeta é casar-se com ela
E para ela estar sempre disponível e sempre amável,
Mas, sem querer dar fama errada aos artistas,
Não sou assim tão fiel…
Tenho lá meus casos com outras artes!

A Música é a amiga de todas as horas,
Todas mesmo. Piano, quando estou triste;
Guitarra, quando estou alegre; Harpa, quando estou tranquilo;
Tambores, quando preciso; Violão, quando me apaixono;
Flauta transversal ou Ocarina, quando me diverte; Rabeca pra descansar.  
E aquela Voz suave que sempre consegue me fazer fechar os olhos e delirar,
Quando estou no ápice do prazer. Gemidos no ouvido...

Não passo mais de duas semanas sem pegar a Dança pra dançar!
É Dança Celta pra se conhecer, Medieval pra se encontrar, Cigana pra me encantar...  
É Balé Clássico pra assumir, Break pra impressionar, Jazz pra cativar... 
É Rock pra descontrair, Valsa pra conquistar, Street pra me agitar... 
É Country pra aquecer, Frevo pra alucinar, Salsa pra rebolar e Forró pra completar...
É Tango pra me seduzir, Lambada pra me abalar, Gafiera pra assegurar...
Dança do Ventre pra se mostrar, Pole Dance pra se despir e Improviso pra acabar!
Às vezes, até Funk ela me faz dançar!

A Pintura é caso antigo, primeiro amor inesquecível, impossível é não relembrar!
Linhas sensuais no sorriso e no olhar, pinceladas suaves de carinho nas mãos,
Muitos ângulos pra se admirar e múltiplas perspectivas pra me ensinar
Como se faz para capturar e gravar a melhor imagem da felicidade me emocionando,
A cada painel colorido com a dedicação de quem não quer nada mais que colorir a vida!
E, a cada afresco, vai me mostrando técnicas de como embelezar a chuva,
Desenhar o sol a Carvão, usar Nanquim em neblina, Guache em passarela,
Acrílica em folha seca, Maquiagem pra tapar as verrugas da lua, Aquarela em fogueira
E, depois de tanto encanto, ainda lhe sobra o batom dos lábios para corar meu corpo!

Ultimamente, ando querendo modelar a cintura de uma bela Escultura
Dar-lhe seios fartos, quadris largos, lábios grossos e cabelos soltos, espalhados no ar,
Mas eu quero alguma matéria quente e úmida que barro, madeiras e pedras não me dão.
Artes Plásticas e flexíveis, uma dessas modernices que andam fazendo por aí...
Borracha? Acho que Borracha não me contentaria, não...
Acho que me afeiçoaria muito mais ao Papel Marchê ou às Fibras de Metais Elétricos..
Enquanto não acho a matéria-prima certa pra esculpir delicadezas de mulher,
Sempre paro pra admirar os flashes faiscantes nos olhos da Fotografia!
Ah! Minha cobiçada menina, fotografe-me onde quiseres, onde eu menos espero,
Faça montagens românticas só pra me marcar em redes sociais, me tenha no caderno!



Tenho até uma amante oficial, a Interpretação.
E como essa sabe quem sou eu!
Me conhece de dentro pra fora, de fora pra dentro, virado do avesso, pouco importa!
Cria corpos que me despertem, cria mentes que me interessem, ilumina os holofotes
Escolhe sempre os melhores figurinos, pensa sempre nos cenários mais incríveis,
Faz cenas, ceras, coceiras, inventa mil situações só pra complicar, me deixar sem saída!
E deixar mais intensa a hora certa de contracenar comigo aquele amor gostoso
Sobre o palco de tesão que sustenta todo o espetáculo de se reinventar
Só pra tê-la nos braços por alguns momentos!

Tenho, sim, meus casos e isso não é segredo pra ninguém,
Mas é a Poesia chamar, com suas metáforas sedutoras,
Suas entrelinhas maravilhosas e suas atraentes antíteses
Suas mil formas inesperadas de me fazer sentir que tudo faz sentido,
Que nada, por mais que pareça deslocado, pode ser considerado errado,
E eu volto totalmente a atenção e o deslumbramento para ela!
E ela me recompensa, pois bem sabe que sou dela e que nunca fugirei deste matrimônio!
Ela sabe, com certeza ela sabe, que, se mantenho laços estreitos com outras artes
E se desejo conhecer mais além, é por devoção, por amor!
É só pra saber ouvir cada vez mais as palavras que ela me traz
E saber corresponder cada vez mais todo o bem que ela me faz  
Pra poder me encantar cada vez mais quando ela vier me mostrar a paz!
    
Elas, todas artes que me enamoram,
Elas até que se dão bem, nunca brigam,
Não fazem escândalo, não me disputam...
São até amigas, confidentes, irmãs.
Por que as mulheres não são como as artes!?   

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Exercício de Teatro que transformei em Conto

Boa Madrugada, gente!
Para contextualizar. Faço Curso de Teatro com Almir Rosa, tenho aprendido muito com ele. Na última aula, ele dirigiu micro-cenas baseadas em situações fictícias e pediu para que os alunos continuassem somente e especificamente as suas personagens como eles agiriam após a cena, para isso não poderíamos nos apegar a escrever qualquer expressão da personagem com quem contracenamos. Mesmo tendo prática na área prosaica, meus contos sempre procuram relatar ao máximo todas a expressões de todos os personagens para que o entendimento seja apurado em todas as dimensões. Ação e reação são constantes nos meus trabalhos prosaicos. Pra ser sincero, nunca tinha penando em deixar uma parte escondida e tentar mostrá-la à partir da reação. Decidi encarar como um novo desafio. O resultado está neste pequeno conto, posto também o perfil que o professor deu para a minha personagem. Comentem. Abraços!
Ed


Perfil: um homem de alta classe social, por volta de 35 anos, dono de uma grande empresa, casado, sem filhos.   

Despedida

Ângelo chega animado em sua casa e vai ao encontro de sua mulher, abraçando-a com ímpeto, mas carinhosamente. Ele se afasta um pouco, cruza as pernas em sua cadeira de rodas e comunica em tom claramente eufórico, olhando no rosto de sua esposa: “A grana da viagem saiu, podemos ir amanhã mesmo!”. Fica sem palavras ao ouvir a resposta de sua esposa e, apenas depois de algum tempo olhando para chão, volta o olhar para ela e indaga num tom descrente e visivelmente alterado: “Mas... é a viagem que você sempre quis fazer...!”. Diante da resposta, Ângelo vira a cadeira de lado para a esposa, como se estivessem sentados num sofá, e seus gestos e postura indicam tanto desnorteio e tristeza, quanto certo distanciamento. Ele não chora nem ri, apenas, olha vagamente para as coisas. Sem reação imediata, ele procura não olhar para a esposa, tentando se orientar em alguma coisa mental, algo só dele. Finalmente, Ângelo gira as rodas de sua cadeira, com certa fraqueza, lentidão, mas sem se demonstrar abalado, até um piano, abre a tampa das teclas, respira fundo, dedilha bruscamente um glissando e algumas notas de uma música. Para, também bruscamente, abaixa as mãos até as coxas, lentamente, e fala, numa voz baixa, olhando para as teclas do piano: “Tudo bem, eu assino. Já está tarde, dorme aqui... amanhã a gente vê o que faz.” Volta a tocar a música de onde parou. Não dirige mais o olhar nem a palavra à esposa. Só se retira do piano para dormir. Dorme na sala, tirando o casaco e usando-o como cobertor.

No dia seguinte, Ângelo acorda e, com movimentos lentos, olha o relógio, se espreguiça, veste o casaco, vai até o piano, pega um porta-retrato, admira a foto por algum tempo, deixa o porta-retrato virado pra baixo. Pensa por algum tempo, olha redor de si como se estranhasse o local, mas com um ar de saudade. Ângelo, então, pega um bloquinho-de-notas e uma caneta em cima do teclado, escreve um recado, descarta a folhinha do bloco, amassa, joga ao chão, suspirando e balançando negativamente a cabeça, e torna a escrever. Descarta essa folhinha, deixa o bloquinho e a caneta em cima do piano. Torna a pegar o porta-retrato, prende a folha junto à foto, deixa o porta-retrato em pé sobre o piano. Toca a mesma música. Vai até a mesa do telefone e liga para alguém, dizendo: “Remarque todas as reuniões deste mês para conferência de vídeo e me encontre em Paris semana que vem. Tout ira bien, Tout ira bien!” Ângelo pega seu passaporte e seu cartão de crédito, guarda no bolso do casaco e sai, rodando lentamente sua cadeira de rodas, com um leve sorriso de agradecimento. 

Edgar Izarelli de Oliveira
      

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Outro exercício (em que o próprio professor falhou) da Oficina

Boa tarde, gente!
Uma introdução: A poesia postada foi esctrita durante a aula de ontem, quando sugeri um exercício de simplicidade. Meus alunos se deram bem; quanto a mim, bem, creio que a simplicidade  já se tornou um grande desafio. Minha poética se desenvolveu por um caminho onde a superposição de várias imagens complexas e, às vezes. nem tão poéticas é o que cria a beleza e o sentido da poesia, em oposição a simplicidade, que distribui vários sentidos de uma única imagem. Acho lindo quem consegue  ser simples, até por que, na essência da minha poética, a simplicidade era mesmo o mais bonito. Bom, meu estilo se desenvolveu assim para poesias maiores ( MAIORES QUE SEIS VERSOS QUE NÃO SIGAM UMA LINHA HAIKAISTA, embora, nos últimos tempos, tenho podido simplificar um pouco, redzindo a extensão da poesia), o mais simples que consigo fazer é algo por volta disso,  


O Abraço das Crianças
                                               Edgar Izarelli de Oliveira


Crianças correm pelo parque.
Nada é mais poético...
Vozes infantis falando vocábulos em sentenças desconexas
Me parecem uma grande orquestra tocando a melodia da poesia.
Vocábulos? Sentenças? Desconexas? Orquestra? Melodia?
Ai, ai... Esta minha tendência a complicar as coisas
Às vezes me faz até considerar hipóteses que mostram gráficos
De uma relação inversamente proporcional entre desenvolvimento e simplicidade.
Entre a sabedoria e a inocência. Entre a beleza e a despretensão.  
E aí, acabo achando que tudo já foi dito e que nada mais é poético…
Mas ao ouvir as vozes das crianças falando palavras...
Palavras... Apenas... Apenas... Apenas... Livres... Apenas brincando...
Tenho a impressão de que a inocência, sim, é sábia.
Despretensão, sim, é bela. A simplicidade, sim, é evolução.
E quando uma criança abraça um estranho como eu,
Um adulto estranho cheio de minhocas na cabeça e pedras no coração,
Posso até não achar palavras simples pra dizer: “obrigado!”
E posso me esconder atrás de um sorriso sincero,
Mas me lembro que a poesia é um gesto simples de carinho...
Nada a mais é poético!
   

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Bom dia VIII

Bom dia!

Desejo que hoje quebres o ciclo dos acontecimentos e pensamentos que te conduzem a uma zona depressiva, introduzindo um simples sorriso, um recado de alegria, um pouco de esperança na face de quem gostas, para que a vontade de retribuir possa se espalhar como luz nos espelhos do olhar.

Afinal, é introduzindo uma mudança que mudamos todo o ciclo e são as pequenas mudanças feitas por nós que podem trazer grandes surpresas para nós!

E é assim, retribuindo a alegria que me causas com tua presença em meu coração, que eu quero espalhar um riso aberto que mude teu dia para alguma variante mais feliz!

Edgar Izarelli de Oliveira

domingo, 16 de setembro de 2012

Oficina "Sentido Literário"


Bom, estamos em Setembro, praticamente, meio curso ja transcorrido mas ainda temos vagas então refaço o convite. Venham fazer uma aula pra conhecer o trabalho. Procuramos desenvolver um trabalho visando o estilo próprio de cada um. Nada forçado. Quanto a idade, colocamos no folheto de 15 a 20 por que era a idade preferencial, mas atendemos de 15 a 29 anos.

sábado, 15 de setembro de 2012

Sentimentos de um dia...

O Oitavo Espectro da Saudade

Edgar Izarelli de Oliveira


Passar o dia desanimado não me seria tanto problema

Se, ao menos, eu conseguisse converter o tédio em ócio criativo,

Mas a saudade domina meus pensamentos até que eu canse da luta

E comece a lembrar de datas, dos horários, dos tons de voz, dos abraços, dos sonhos...

Na verdade, já faz algum tempo que sinto se aproximar de mim,

Pacificamente e sem me deixar saídas plausíveis ou reações cabíveis,

Essa sensação estranha que força um elo a mais para correntes, já separadas,

De coisas abstratas que ainda parecem fantasmas tomando formas vagamente visíveis

Só pra que eu não esqueça que o oitavo ciclo do inferno é o paraíso mais perfeito.

No começo, eu achei que era algo passageiro que, depois, foi parecendo desespero,

Mas hoje eu sei que é saudade pura, daquela que pulsa nas veias, nos músculos, nervos.

E quem diria que, depois de tanto tempo, me faria tanta falta esperar por alguém?

Quem diria que eu passaria horas criando pretextos inexistentes pra combater o medo

De telefonar só pra ouvir a voz da pessoa amada, como se isso fosse crime inafiançável?

Quem diria que o querer por querer um dia não bastaria pra pessoas que se gostam...

E seria preciso querer precisar pra poder reatar as linhas da comunicação possível?

E quem diria que eu repetiria, algum dia, a mesma pergunta sorrateira:

Só por que a relação acabou o amor, agora, é carta rasgada que ninguém nunca lerá?

É tão proibido assim mostrar afetividades sinceras a quem não nos integra mais?

Sei lá, mas essa saudade me induz a querer precisar querer estar por perto...

Só pra descobrir que o oitavo espectro da saudade é a própria saudade.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Para explicar uma coisa básica, só uma poesia me serve

A Matéria-prima


Engana-se quem acha que a poesia é feita de palavras.

Palavras são pregos, pinceladas, toques, canais, coisas fortes e banais.

Palavras são os instrumentos, não a música.

Palavras são os atores, não a cena.

Palavras são os tijolos, não a casa.

Palavras são os passos, não a dança.

Palavras são os atos, não a filosofia.

Palavras são os sentimentos, não a sensação.

Palavras são as armas, não a guerra.

Palavras são esculturas numa base de papel, não a matéria-prima.


A poesia pode ser feita de areia, de barro, de plástico, de cerâmica,

De argila, de madeira, de mármore, de metal, de vidro, de gelo...

Poesia pode ser feita de material reciclado, de lixo, de restos, de sobras, de faltas.

Poesia pode ser feita de ar, de fogo, de raios solares, de neblina, do luar...

A água é sempre boa matéria, maleável e inconstante, mas sempre presente,

Pode nos dar lágrimas, poças, poços, lagos, o movimento dos rios e as ondas do mar.

Poesia pode ser feita de amor, de prazer, de tristeza, de alegria, de raiva, de pensamento.

Poesia pode ser feita de pólvora negra.

Há poesias feitas de penas.


Poesia pode ser feita de pessoas, de lugares, de situações, de vidas, de mortes, de sortes...

Poesia pode ser feita de cores, flores, fotos, de fatos, de contos, de muros, de murros,

De telefonemas, de cheiros, de olhares, de sorrisos, de cabelos brancos, pontes, pontos,

Folhas, carrosséis, medos, lutas, conquistas, cidades, doenças, campos, solidão, fé...

Há até poesias feitas de poesias. Poesias feitas de nada, de silêncio, de possibilidades.


A poesia pode ser feita de qualquer coisa, mas sempre acaba por ser a mesma coisa...

A lápide de cristais lapidados a lápis ligada por uma linha lilás à leveza das estrelas,

Onde repousa o peso das palavras que encontram olhos numa correnteza de sentidos!


Edgar Izarelli de Oliveira

domingo, 9 de setembro de 2012

Haikai Inspirado En Mi Amor

" Quem é Deusa
Ilumina pela fé,
Não por milagres!"


Edgar Izarelli de Oliveira

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Acabei de escrever

A Protagonista da Nova Novela da Nove

"Assistirei ansiosamente paciente a cada um dos malditos comerciais
Que passam diante da minha vida e dirigem a mim grotescas mensagens subliminares,
Querendo que eu compre dúvidas e consuma realidades errantes;
Só para não perder nenhum pedacinho da nova novela das nove
Pois quero ser o primeiro a reconhecer que é para mim a voz protagonista,
As curvas da f
ace ao sorrir, o aspecto brilhante dos cabelos soltos, o jeito carismático de andar,
E os olhares cativantes da personagem central da minha trama,
Para, enfim, saber de quem, afinal, é o corpo flexível e erótico,
Que atua indiscretamente como recipiente desta coisa tão bela e sensual
Que é a alma de uma mulher repleta de sinais amorosos que meu abraço tanto buscou!"

Edgar Izarelli de Oliveira

Três em um ou um em três?

Tres Haikais

"Botão recluso…
Pétala silenciosa
É bela chave!

Botão recluso,
Conserva tua beleza
Pra um dia de sol!

Beijo do tempo
Deixa expostas as flores
No campo do amor!"

Edgar Izarelli de Oliveira